“Há muita pressa e rebuliço nos nossos sistemas nervosos. Não chegou o metro e todos se levantam, uma manada de viajantes que entopem o caminho de quem quer sair das carruagens. São pequenos hábitos que nos controlam e nos corroem como uma carraça escondida na orelha.

 Mal o avião toca na pista e já se ouve o estalar metálico dos cintos de segurança, as portas dos compartimentos para a bagagem, os guinchos dos telemóveis lembrando-nos de que o mundo exige que estejamos sempre presentes. Não podemos perder nada. Se o computador demora mais uns segundos a acender, amaldiçoamos deus e a empresa fabricante – há uns anos, um jogo do Spectrum 48 k demorava tanto tempo a entrar que dava para ir fazer um lanche ou ler meio livro do Homem Aranha.

Se apanhamos fila no supermercado, está o dia em ruínas, se alguém demora a arrancar num semáforo há logo uma buzina causadora de gaguez e úlceras. Temos de ter a mesma velocidade da internet banda larga e a satisfação permanente das meninas magrinhas nas capas de revista ou dos anúncios de cerveja.

Qualquer micro obstáculo que dificulte a concretização dos nossos desejos mais simples e imediatos se torna num falhanço. E mesmo que tanta coisa não dependa de nós, mesmo que os nossos ataques de nervos não resolvam as incorrecções do universo, continuaremos a pensar que as nossas queixas são tão poderosas como para acelerar metros ou conseguir melhor cobertura de rede. A impaciência é um estilo de vida. E não ser feliz a tempo inteiro, segundo a segundo, é hoje um enorme falhanço existencial. “

por Hugo Gonçalves

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