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“Há muita pressa e rebuliço nos nossos sistemas nervosos. Não chegou o metro e todos se levantam, uma manada de viajantes que entopem o caminho de quem quer sair das carruagens. São pequenos hábitos que nos controlam e nos corroem como uma carraça escondida na orelha.

 Mal o avião toca na pista e já se ouve o estalar metálico dos cintos de segurança, as portas dos compartimentos para a bagagem, os guinchos dos telemóveis lembrando-nos de que o mundo exige que estejamos sempre presentes. Não podemos perder nada. Se o computador demora mais uns segundos a acender, amaldiçoamos deus e a empresa fabricante – há uns anos, um jogo do Spectrum 48 k demorava tanto tempo a entrar que dava para ir fazer um lanche ou ler meio livro do Homem Aranha.

Se apanhamos fila no supermercado, está o dia em ruínas, se alguém demora a arrancar num semáforo há logo uma buzina causadora de gaguez e úlceras. Temos de ter a mesma velocidade da internet banda larga e a satisfação permanente das meninas magrinhas nas capas de revista ou dos anúncios de cerveja.

Qualquer micro obstáculo que dificulte a concretização dos nossos desejos mais simples e imediatos se torna num falhanço. E mesmo que tanta coisa não dependa de nós, mesmo que os nossos ataques de nervos não resolvam as incorrecções do universo, continuaremos a pensar que as nossas queixas são tão poderosas como para acelerar metros ou conseguir melhor cobertura de rede. A impaciência é um estilo de vida. E não ser feliz a tempo inteiro, segundo a segundo, é hoje um enorme falhanço existencial. “

por Hugo Gonçalves

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Hum, passei no meu antigo blog (este portanto), e pus-me a pensar no real significado dos 31.765.

Se cá passaram esse número de visitas, o que é que motivava a maioria delas? Eu confesso, que sou um pouco “mete nojo” às vezes, tal como toda a gente (e principalmente o Tuga), às vezes gosto de meter o bodelho mesmo em coisas que não gosto. Alguns blogs fazem-me rir. E com isto não quero dizer que o meu antigo Blog não fosse o mesmo para as 30 e tal mil visitas. Tudo relativo.

Há uns tempos, todos os dias fazia uma visita diária pelos meus blogs favoritos e aprendi muito com isso, é o que sei. Gostava que alguns voltassem ao activo, principalmente nestas horas mortas que tenho tido no trabalho.

Enfim, isto para dizer que me apetece voltar a este espaço. De vez em quando.

Li este livro essencialmente nas viagens Lisboa – Mafra que tenho que fazer quase 2 vezes por dia, quase todos os dias.
Já tinha falado aqui de um livro (Budapeste do ano de 2003) , do músico e escritor Chico Buarque.

Quanto ao livro Benjamim, adaptado para cinema em 2003, é um romance confuso e a história, alternando do passado para o presente, de um ex modelo publicitário com uma jovem recém conhecida Ariela Masé e a lembrança das suas semelhanças com um antigo amor Castana Beatriz.

A história a mim pareceu-me muitas vezes pouco cativante e quase “tosca”,e a faltar qualquer coisa, em comparação com outras coisas que já tinha lido do autor.

“Não precisas de olhar para o telefone de disco, ensaiando o discurso, antes de ligar para o número escrito num guardanapo de discoteca, como acontecia nos tempos em que desapertar um soutien era uma glória pouco frequente. Hoje, basta que, a meio da conversa com uma miúda que acabaste de conhecer, lhe perguntes se tem Facebook. Depois diz que vais buscar uma bebida. Volta mais tarde, quando já consultaste, no teu telemóvel, o perfil dela (deu para veres uma foto, na praia, ao fim do dia, bonito sem ser piroso, gostas da boca e do cabelo dela). Quando chegares a casa, se estiveres em condições de teclar, manda um sms, nada de emocional, reconhece que gostaste da noite. Não uses o Facebook, isso indicaria que te deste ao trabalho de ligar o computador. Durante a semana, troca mensagens no Facebook, se as mensagens acelerarem, entra no chat e fala com ela. Se as mensagens forem planas, curtas e sem espaço de manobra, esquece e aproveita os privilégios do presente: a tecnologia economiza tempo. Se as coisas correm bem, usa ferramentas de sedução, como postar o vídeo de uma banda que ela te mostrou ou apenas fazer um “Like” em algo que ela tenha escrito no mural: “O teu coração dá-me tesão”. Um dia vais acordar no quarto dela. Diz: “Deixa-te estar”, dá-lhe um beijo, diz: “Vou para casa.” Não mandes sms. Toma o pequeno-almoço e mete-te na cama com o laptop. Uma miúda que não conheces fez um “Like” na frase que roubaste a um escritor: “Your ♥ is my piñata”. Manda-lhe uma mensagem. Mais uma ficha, mais uma voltinha.”

Hugo Gonçalves


Visto aqui.

Lembram-se por exemplo do vosso 5º ano no dia dos namorados? Havia uma caixa grande todos os anos feita para cartas que tinham o nome, o ano e a turma do destinatário para depois serem distribuídas. Normalmente as cartas eram anónimas ou algumas até a gozar com alguém, ou só a dizer “lembrei-me de ti, ola”. Lembram-se? Ainda tenho algumas guardadas… Hoje em dia a minha irmã que está no 5º ano, tem facebook e fala com os amigos pelo msn ao invés de enviar uma carta ou ir para a rua brincar e ouvir discman.

Não estou a ser hipócrita porque confesso que uso a internet por exemplo, para várias coisas, o dia-a-dia, mas este texto deixou-me a pensar que quanto mais olho para o mundo com “olhos de ver” menos gosto dele. As pessoas vão se esquecer dos verdadeiros sentimentos até ser um caso de “em tempos …”.

Aquelas pessoas que parece que nunca têm um bocadinho de loucas e até desiquilibradas em certas alturas, assustam-me. Às vezes apetece-me gritar-lhes aos ouvidos.

“Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o

cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora

de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário

do amante exemplar com cem modelos de cartas

e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Manuel Bandeira.

A Year’s Supply of Jello Biafra

Jello Biafra, vocalista de Dead Kennedys, deu uma entrevista para a Aquarian.

Gostei de ler, tem interesse apesar de não concordar com muitas das opiniões do senhor.  Música , política e ao mesmo tempo a boa disposição são os principais pontos.

“You got to give the BBC this: yes, it’s run by a government, but they’re more likely to broadcast something like that than the latest misadventures of Tiger Woods’ penis over and over again. We have another celebrity drug death, and my only reaction to that is ‘Thank you for dying, get off the air, goodbye.’ “

Mais aqui.

Everlast of House Of Pain

Já agora fica também a entrevista do Everlast sobre House of  Pain e sobre a sua carreira nos últimos anos.


“it seemed like a cool thing to do. The way I look at it is, this year came around—and people offer gigs all the time—but for some reason around St. Patty’s Day I get to feeling nostalgic, and it offers me the opportunity to revisit the material that I really haven’t done in a long time, because I’m not interested in being one of these dudes on the old school circuit. Hopefully, that’s still a few years away.”

Mas aqui.

De Robert Louis Stevenson.

Um médico que consegue a fórmula para dividir as duas personalidades que há em si em duas pessoas diferentes. Edward Hyde é o lado mau do médico e tudo se complica quando o mesmo já não tem controlo sob as suas vontades e os actos do seu “outro eu”.
É pena a contra capa ser muito intuitiva quanto à moral e ao final da história (para a próxima não leio), sem contar que o livro em si é bastante conhecido, mas acabou por não me entusiasmar tanto quanto à parte da investigação do advogado Utterson devido aos acontecimentos estranhos relacionados com essa personagem, Hyde. O facto de já saber no que a busca da verdade pelo advogado vai dar, para mim é um ponto contra.
Quanto à moral da história, é no sentido de perceber o que há de mais sombrio em cada pessoa e no seu outro eu mais obscuro do ser humano. É um confronto interior, contado de forma metafórica, entre o bem e o mal.

Por incrível que pareça desde que comecei num novo emprego tenho muito mais tempo para ler.
Porquê? Porque os meus skills sociais nem sempre são os melhores, tudo depende de como acordo e a juntar ao facto de estar a deixar de fumar (que parecendo que não, e até acredito que quem não fume não note, mas a pausa para o cigarro é um bom momento para estar com colegas de trabalho). Portanto deixando o cigarro de lado, a minha vontade de socializar com pessoas ás vezes é mesmo zero e acabo por aproveitar para ler nas pausas. Não pensem que sou horrível, depende das situações apenas.
Portanto espero sirva pelo menos para acabar o que tenho para ler, que não é pouco.

Lee.

De Francisco Buarque de Hollanda, (Chico Buarque).

Este livro Budapeste, conta a história de um ghost-writer (josé Costa), ou seja alguém que escreve o que por outros depois será assinado ou publicado como sendo da sua autoria. Dá a entender a “ingratidão” de estar desse lado, e do não reconhecimento desta profissão, é amargo nesse ponto. Mas é também sobre amor.

José Costa, é em certa viagem obrigado a fazer escala em Budapeste, onde conhece Kriska. Vai descobrir então uma enorme vontade de aprender a língua dessa desconhecida e é Kriska que vai ser sua professora. Devido a esta vontade de ficar nesse país desconhecido, aprender a língua e viver com Kriska, Costa, deixa a sua mulher Vanda no Brasil e muda-se para Budapeste.

Duas mulheres, dois países, dois amores, duas línguas.

Gostei, lê-se muito facilmente.

Lee.

A favor da estupidez há muito mais a dizer do que normalmente se pensa.

Pessoalmente, tenho a maior admiração pela estupidez. Quem sabe se não é por algum tipo de solidariedade.

Meditações:

Oscar Wilde

Lee.

Chamam-te «Zé Ninguém!», «Homem Comum» e, ao que dizem, começou a tua era, a Era do Homem Comum. Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro, mas não te perguntam pelo passado.”



“Escuta, Zé Ninguém!”, de Wilhelm Reich é uma chapada da realidade, uma crítica dura mas inteligente para o “Zé Ninguém” que cada um tem em si. Reich escreveu em 1944 o que ainda hoje em dia, pesa na consciência da humanidade.

Um texto num tom bastante arrogante, é certo, e ainda bem que o livro é relativamente pequeno porque apesar de interessante, realista e inteligente, como já disse, se fosse um pouco maior tornaria-se “muito do mesmo”. Mas o livro acaba por ter o tamanho exacto e não me aborreceu em nenhuma altura, o que pode ser diferente com outras pessoas na verdade. O contra é que odeio um bocadinho mais a humanidade.

Reich, foi um psicanalista seguidor de Freud . Bastante polémico e “perseguido” devido a obras como “A função do orgasmo” , acabou por morrer na prisão em 1957.


“Cala-te desgraçado. Toda a tua vida é miséria. Não é minha intenção salvar-te, mas hei-de levar esta conversa contigo até ao fim, mesmo que me venhas bater à porta embuçado, pela calada da noite, trazendo nas tuas mãos sangrentas a coda para me enforcar.”


E se te interrogo, respondes-me: «mas que posso eu fazer?». És assim e não queres ser diferente. Aliás, a mudança arrepia-te e perturba-te a segurança medíocre que cuidadosamente alimentas dia após dia. Meu desgraçado, quem és tu para teres direito a opinião própria? Em casa dás pancada na mulher e nos filhos, na taberna embebedas-te como um porco e ainda te restam forças para conspirares contra mim! Que hei-de fazer, meu grande malandro? Não tens onde cair morto nem vivo. Cultivas a tacanhez, a cobiça e a inveja como um jardineiro planta as ervas daninhas no seu próprio jardim. És assim porque queres, meu grande cão. Enquanto queimas criaturas em fornalhas contínuas a responder-me: «mas que posso eu fazer?». Não percebes, meu aldrabãozeco, que todos os grandes pecados da humanidade começam nos pequenos actos tolos que cometes no teu dia-a-dia!? Sim, Zé Ninguém, tu mesmo, estou a falar contigo. Chamas-me utópico e intelectualzinho de merda enquanto tu vives na miséria, matas a própria esperança e a dos teus filhos e ainda berras «Vivas». Ao sábio chamas larápio e gritas: «Agarra que é judeu, agarra que é preto, agarra que é marroquino». Gritas porque tens medo, meu energúmeno narcísico. Pensas sempre na satisfação dos teus pequeninos prazeres e nunca no bem geral.”

Assinatura de Wilhelm Reich

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…”

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Lee.




Voltaire

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…não tem nada.

O Ingénuo“, livro de Voltaire, conta a história de um hurão quase ignorante (o ingénuo) que viaja para França no século XVII e que se apaixona por uma Francesa católica. É aí baptizado pelo Prior de Notre-Dame e pela sua irmã que descobre serem seus tios, sem saber das consequências, nas “leis” da igreja, de ter como madrinha de baptismo a pessoa por quem se apaixonou.

O Ingénuo que nunca conheceu nada para além das leis da natureza, quanto mais se informa e quanto mais rico fica o seu conhecimento , menos se conforma com as leis, condicionamentos e perseguições do homem e da igreja. Pensamento e visões da mente simples e pura do hurão que não é ingénuo, em contraste com uma sociedade unificada e cheia de leis e tradições morais e religiosas.

Uma sátira à religião católica e à sociedade da altura, com um final trágico.

“(…) – Dizei-me: há seitas em geometria?

– Não, meu querido filho. (…) todos os homens estão de acordo sobre a verdade quando a verdade está demonstrada: mas estão muito divididos no que toca às verdades obscuras.

– Dizei, antes, no que toca a falsidades obscuras. Se houvesse uma só verdade que fosse oculta dos nossos argumentos, há tantos séculos peneirados, já teriam, sem dúvida, descoberto e o universo ter-se-is já posto de acordo, pelo menos nesse ponto. Se a verdade fosse tão necessária como o sol o é à terra, seria como ele brilhante. É um absurdo, é um ultraje ao género humano, é um atentado contra o ser infinito e supremo, dizer: “Há uma verdade essencial ao homem e Deus ocultou-a.”.”


Muito bom rapaziada.

Cotação: 8.5/10

Lee.

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Acredita-se que este livro “O Jogador” tem muito de auto biográfico. É visível que sim, pelo menos na parte final em que a personagem principal, Alexei Ivanovich um russo a viver em França, se vicia em jogo, tal como Fiódor Dostoiévski era viciado. Vê-se que é uma visão pessoal de como é estar viciado em jogo.

A história é de escrita relativamente simples e não tão descritiva ao nível psicológico; está no género de escrita do “Coração Débil” (Já li mas não escrevi sobre o livro no blog, pode ser lida uma opinião interessante aqui.)

Relativamente à historia em si, Alexei Ivanovich é narrador e conta que trabalhou em França para uma família que estava à beira de perder a sua fortuna. À volta dessa família está a negatividade e ganância pelo dinheiro, o ódio, a hipocrisia, o desespero e o mistério (e muito enredo pelo meio, com vigaristas e pessoas que se tentam aproveitar da possível fortuna). A única esperança da família será uma avó russa rica, que  esperavam que morresse para herdarem a fortuna, mas esta acaba por perder quase tudo o que tinha no jogo.

Alheio a isto e desinteressado, Alexei Ivanovich só pensa em conquistar Polina Alexandrovna, com quem mantém uma relação de amor ódio, mas no fim acaba por viciar-se no jogo, não pelo dinheiro e ganância como é o caso das pessoas que o rodeiam, mas sim pela excitação de jogar, acabando por esquecer tudo o resto. Bom, bom, mas não tão genial.

cotação: 7.5/10

Lee.